quinta-feira, 5 de abril de 2007

"LEFT BEHIND" - AJUDA E ABANDONO

(Claro que tem SPOILERS! para quem não viu o 15º episódio da terceira temporada)

- "Eu acho que uma garota precisa apoiar outra" (Kate)
- "Ben tem uma adoração por jogos mentais" (Juliet)
- "Você não pode escolher quem você ama" (Diane)
- "Não é legal ser bonzinho?" (Hurley)
- "Você me enganou para ser decente? Esse deve ser o pior golpe da história dos golpes!" (Sawyer)
- "Pensei que, se eu pudesse te fazer ver que estávamos na mesma situação, talvez não fosse abandonada novamente" (Juliet)
- "Ela também irá conosco" (Jack) - "Por quê?" (Sayid) "Porque ela também foi deixada para trás" (Jack)





Ajudar é simples? Para colaborar, basta querer? Nem sempre.

Se consigo extrair alguma lição maior neste episódio de "Lost" centrado em Kate, ela está aí acima. Aliás, na verdade está ao lado de outra, o óbvio tema da vez: o abandono, explícito até no nome "Left Behind" ("deixado para trás"). Ajuda e solidão estavam em todos os lados - e algemados tais como Kate e Juliet.

Saber quando ajudar parece ser uma arte sutil. A fuga de Kate, que já fez a sardenta pagar preços muito caros - a morte de Tom e a distância de sua mãe, entre outros - foi ocasionada por conta de uma cooperação que ofereceu a Diane sem que ela sequer tivesse pedido.
Kate encontrou um problema na vida da garçonete que a própria jamais identificou como tal.

Claramente cego, o amor de Diane por Wayne justificava o "amor" de Wayne, e foi a fonte de toda a revolta contra o homicídio superprotetor de sua própria filha. E mesmo em meio a essa sua percepção turva dos fatos, ao cogitar que Kate havia matado seu pai-padrasto em favor de si própria, a garçonete parece ter levantado a seguinte questão: quando foi que você me ouviu gritando por socorro?

Enfim, Kate estava pensando em Diane? Kate estava pensando em Jack?

Diante da dificuldade de Kate em interpretar quando uma pessoa quer ou não ser salva, a dívida moral pela ajuda que Jack deu a ela em sua fuga da ilha-Alcatraz ganha outros reforços. A sardenta queria salvar Jack ou agia por achar e querer que ele estivesse salvo somente ao lado dela?





O problema que Kate tem com saber quando ajudar, Hurley parece não ter. Aparentemente "inventor" de uma necessidade de Sawyer em ser aceito pelo grupo, na verdade penso que nosso querido milionário tenha de fato colaborado na revelação de uma vontade que o golpista tem, mas que sempre tratou de esconder sob grossas crostas de autodefesa. Tá na cara: Sawyer entendeu os propósitos de Hurley e concordou com ele - até porque a tal "liderança natural" do trambiqueiro já revela sua empatia com os demais, não?

Sawyer cresceu aprendendo a esconder sentimentos - e Hurley soube perfeitamente aflorá-los, talvez escutando um pedido de socorro sob tanto cinismo e distanciamento. E em seu plano, até parece que Hurley ouviu Ben dizendo: "o único jeito de se conseguir o respeito de um golpista é aplicando um golpe nele".




E, finalmente, Juliet. Seu pedido veio através das algemas - que, mais uma vez, Kate parece não ter conseguido alcançar num primeiro momento - e é ao mesmo tempo simbolicamente bonito e sincero ao extremo. "Lost" é uma série de solitários. Os sobreviventes do vôo 815 formam um coletivo de ermitões, e Juliet não destoa dessa realidade. Em "Not In Portland" tive essa sensação, que prevejo que irá se repetir em "One of Us".

Em "Lost", o medo da solidão nasce nos que não sabem virar a página - e, conseqüentemente, se isolam e são isolados por esse apego ao passado. E consigo ver mais uma grande metáfora sobre isso neste episódio: a "virtude" dos Outros de saber partir sem deixar rastros. Bela e significativa, é quase o maior simbolismo de "Left Behind", só perdendo lugar para o das duas rivais algemadas.

"Left Behind", enfim, foi um episódio mediano que abordou esses dois temas na trajetória de reequilíbrio de Kate e Juliet. Um capítulo que, confesso, foi o que menos me agradou nesta terceira temporada.

* * *

Para os que estranham eu não ter falado nada sobre o monstro de fumaça, tudo o que tenho a dizer é: aguardem o podcast. Vem na segunda... ou não. Pode ser que chegue antes disso. Fique ligado!

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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