quinta-feira, 3 de maio de 2007

"THE BRIG" - RITOS DE PASSAGEM, LIBERDADE E REDENÇÃO

(Com SPOILERS! para quem não viu o 19º episódio da terceira temporada)


- "Obviamente, não estamos mortos" (Sayid)
- "Você tem certeza de que isso é uma ilha?" (Anthony Cooper)
- "Um golpista é conhecido por vários nomes, amigo" (Cooper)
- "Sawyer também é o meu nome" (James Ford)
- "Não me diga o que fazer, John" (Ben)
- "Estou na minha jornada particular agora" (Locke)







Dificilmente nós veremos em "Lost" um cruzamento de destinos fora da ilha tão dramático quanto o que envolve John Locke e James "Sawyer" Ford. Homens desgraçados, aniquilados e marcados para sempre por tragédias familiares protagonizadas pelo mesmo sujeito. São tão fortes os laços cruéis que os unem que eu diria que são praticamente a prova de que os passageiros do vôo 815 não estavam nele por acaso.

Por isso, não quis o destino que os dois se envolvessem na grandiosa vingança frente ao inimigo comum chamado Anthony Cooper. Foi algo maior que os uniu naquele evento - algo que, acredito, só descobriremos no fim de "Lost". Vamos então parar e analisar os momentos de vida de Locke e Sawyer até esse encontro com o golpista-mor.

Locke parece pertencer ao time dos personagens de "Lost" que já aprenderam que, na ilha, falar e lidar com a confiança é algo complexo. Por isso, Ben tem dificuldades ao vê-lo não se dobrar facilmente diante dele; e para mim, fica claro que o caçador foi extremamente sincero ao revelar a Sawyer o que o motivou a estar com os Outros: viver uma jornada pessoal de crescimento e aprendizado. Locke não confia nos Outros, e não está seguindo Ben e companhia para conseguir exercer qualquer tipo de liderança - como lhe foi insinuado/oferecido por Richard Alpert - ou por achar que não pertence mais ao grupo do acampamento. O velho caçador está ali para viver o Walkabout de sua vida.

O que é o Walkabout senão um mergulho na sua essência, uma experiência na qual você descobre quem realmente é? E nenhum sobrevivente do vôo 815 representa melhor uma dúvida existencial do que Sawyer. Há uma distinção tão grande, uma separação tão forte, definida e trágica entre suas duas personas que James Ford parece não suportar ser chamado assim - e provavelmente porque, para ele, Ford tenha morrido debaixo da cama, vendo sua mãe morta e ouvindo o corpo do pai caindo desfalecido no colchão.

Como eu já disse há um tempo, vejo hoje que Sawyer está cada vez mais James Ford. Acredito que Sawyer sempre tenha sido mais James Ford do que queria, mas não do que pensava - porque sim, Sawyer sempre soube de seus bons sentimentos. Sabe tanto deles a ponto de ter tentado escondê-los em vão. A fome de provocar incômodos e de ser impopular e pouco querido, claro, se devia ao bem que não se permitia sentir. Ter amor motiva a dar amor; e Ford não podia se permitir isso. Não enquanto Sawyer.





O Ford cada vez mais evidente da terceira temporada, contudo, ainda carregava um pouco de Sawyer, inclusive em seu bolso: a carta. A mensagem que tinha esperança de entregar ao verdadeiro Sawyer e que, talvez, poderia despedi-lo do cruel personagem quando ela encontrasse seu verdadeiro dono. E isso finalmente aconteceu.

Locke e seu fantasma, Sawyer e sua carta... e um Walkabout amordaçado à espera dos dois. Matar Cooper não foi algo meramente físico, como profundamente simbólico para os dois. Não tenho dúvidas de que, deste ato, nasceram pessoas melhores, de formas diferentes. Sawyer não carrega mais a mensagem pesada em seu bolso, e cumpriu o objetivo de uma vida. Da vida de Ford. Será que ele, a partir de agora, permitirá vida a quem ele verdadeiramente é?





Enquanto isso, Locke, num outro cruel simbolismo, carrega literalmente o fardo de sua existência nas costas para dar prosseguimento à sua jornada. E o que fica para mim é o fim da conversa entre os dois vencedores do fortíssimo rito de passagem de "The Brig" - mais precisamente, a resposta final de Locke: "Não sou mais um paralítico".

Uma carta entregue ao seu destinatário, o fim de um salafrário ou mesmo o simples acelerar de uma Kombi precipício abaixo ou uma coreana descobrindo o mar. "Lost" é uma sucessão de ritos de passagem. "Lost" é uma coleção de Walkabouts.


* * *


E ainda teve Naomi e suas fantásticas revelações, o estranho segredo de Jack e Juliet, o vacilo de Kate... e uma possível conspiração contra Ben. Tudo isso e muito mais no podcast de amanhã. Vai perder?

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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