sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

"THE BEGINNING OF THE END" – A DÚVIDA NO LUGAR DA FÉ

(Com SPOILERS! para quem ainda não viu o primeiro episódio da quarta temporada)




“Vocês não sabem com quem estão falando! Eu sou um dos Oceanic Six!” (Hurley)
“Eu estou morto, mas também estou aqui” (Charlie)
"E eu pensando que teria uma boa noite de sono" (Sawyer)
"Eu não estou ouvindo vocês. Estou ouvindo o meu amigo" (Hurley)
"Eles estão vivos... Não é?" (Matthew Abbadon para Hurley)
“Você estava checando se eu enlouqueci... Se eu iria contar” (Hurley para Jack)
“Você vai?” (Jack para Hurley)





Não dá para culpar Hurley e seu descaso com o mar. Com o turbilhão de acontecimentos em quase 100 dias de ilha, ficava difícil aproveitar aquela praia paradisíaca do jeito certo - sobretudo porque aquele lugar, de um jeito estranho, está longe de ser o paraíso. Demorou, mas veio enfim o mergulho de liberdade. Seus colegas de vôo 815 não pularam com ele, mas certamente ele carregou em seu salto a alegria experimentada pela maioria deles.

Mas logo Hurley voltou à superfície - e, junto com ele, o medo, a tristeza, a tensão. A ilha que ele deixou ao cair n'água não era a mesma que ele vislumbrou ao erguer os olhos e perceber que algo muito errado havia acontecido...

Às vezes, a história de um episódio de "Lost" pode ser notada em um breve momento - e, sem dúvida, assim foi com o banho do Dude no mar. Creio que nunca tinha acontecido em "Lost" uma transição de sentimentos tão bem orquestrada; e a divisão exata entre a euforia e o desânimo, entre o alívio e a tensão, foi exatamente o momento do mergulho de Hurley.

Desmond voltou, e com ele, a tempestade sucedeu a bonança. A morte de Charlie foi duramente sentida por todos; e a nobreza de seu gesto heróico, o divisor do grupo dos sobreviventes, divididos entre a esperança e o alerta. Para uns, impossível que ele não tenha trazido a salvação; para outros, não dá para ignorar o aviso na palma de sua mão.

Enfim, aconteceu o encontro dos dois grupos; e nem Jack, mais resolvido e seguro do que nunca em torno de um objetivo - a ponto de tentar levar a cabo a promessa de matar Locke - foi capaz de abafar a realidade que se impôs à esperança, graças à mensagem da mão de Charlie e ao discurso emocionado de Hurley. Suas palavras firmes, se não foram suficientes para cativar e convencer todos ali, ao menos plantou uma incômoda dúvida e fez dividir o grupo que havia amanhecido unido em torno de uma só vontade.





Onde havia fé, agora há a dúvida, o racha, a incógnita, o medo. E a chuva que caiu pesada lavou qualquer marca de que, em suas primeiras horas, aquele foi um dia de liberdade. Liberdade?

Não. Não há isso no futuro dos Oceanic Six. No de Hurley, há sim medos, traumas e a mesma culpa que Jack ostentaria tempos depois.





E ele, que em um discurso emocionado marcava o respeito à mensagem de Charlie, tempos depois pôde entender que seria preciso, mais uma vez, ler a mão e a vontade de seu amigo.

Hurley, eles precisam de você; e até que você cumpra esta sua missão, fica a certeza de que, na ilha, nenhum outro dia jamais vai raiar como aquele.


* * *

Não, não ignorei Christian Shephard. Nem Jacob, Matthew Abbadon, Naomi, Ben, Rousseau... Eles e tantos outros detalhes de "The Beginning of the End" estarão no podcast #53. Namastê!

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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