sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

"THE ECONOMIST" - A TRAGÉDIA DE UMA ALMA VENDIDA

(Com SPOILERS! para quem não viu o terceiro episódio da quarta temporada)

"O que ele é, diplomata?" (Frank Lapidus)
"Não: ele era um torturador" (Jack)
"Todo mundo tem um chefe" (Sayid)

"Me perdoe, mas no dia em que eu começar a confiar em Ben, será o dia em que eu tiver vendido a minha alma" (Sayid)

"Você quer proteger seus amigos ou não, Sayid?" (Ben)

"O que você sabe sobre amizade?" (Sayid)
"Sei que é inútil quando se tem amigos em que não se pode confiar" (Ben)

"Por que está chorando? Por que dói ou por que foi estúpido o suficiente para se importar com ela?"(Ben)





Sayid Jarrah: vilão ou vítima? Essa foi a pergunta que me veio à cabeça após o sinistro "Ótimo" dito por Ben ao fim deste terceiro episódio. E, por mais que as evidências apontem para a primeira opção, a trajetória do iraquiano me balança em direção à segunda. Balança, mas não me empurra.

"The Economist" é extremamente eficiente no que parece ser seu objetivo principal: tirar toda e qualquer certeza que tínhamos sobre o caráter de Sayid Jarrah - aliás, uma característica que já era comum a todos os flashbacks do iraquiano. Algo fundamental para enxergarmos o personagem de forma completa.





Explico: desde a queda do vôo 815, com sua firmeza, decisão, perspicácia - e, sobretudo, com a sensação de extrema sensatez que demonstra em sua conduta -, Sayid nos dá a mesma impressão definida ironicamente por Frank Lapidus, mas que, para o espectador, não deixa de fazer sentido: ele é um diplomata. Sim, um diplomata que sabe ser rude, mas só quando é estritamente necessário - e ele torce desesperadamente para que a necessidade não se faça presente -; mas também é sensível o suficiente para se voluntariar a buscar Charlotte sem derramamento de sangue, ou para sugerir a vaga de Naomi para o vôo de volta ao cargueiro.

E, subitamente, tudo muda de figura quando esquecemos o Sayid Jarrah da ilha para pensarmos no homem dos flashbacks. Neles, o iraquiano é aquele que matou colegas para salvar seu amor, arrancou informações de um superior seu na base da brutalidade, traindo seu país, causou um trauma irreparável em uma mulher... e quando não matou ou feriu diretamente, fez um amigo se suicidar de desgosto. Entra em cena o Sayid definido por Jack: o torturador.

Um torturador é aquele capaz das maiores atrocidades em troca de algo que o beneficia de alguma forma; e, na ilha, só Ben deve ter a plena ciência do que Sayid realmente passou para ganhar esse título. Só que o Outro sabe também que mesmo Sayid tem suas fraquezas, resolvendo usar o coração em vez da arma de vez em quando. Para Ben, isso basta para também torturá-lo no futuro, submetendo o iraquiano aos seus comandos em troca do bem-estar de seus amigos. Aliás, quem serão eles?

O homem forte, que por vezes comandava os sobreviventes, no futuro é um soldado, recrutado por seu talento maldito, e guiado pelo que homens infalíveis como o demônio intelectual chamado Ben Linus chamam de fraquezas. É mais um Oceanic Six, unido aos demais não apenas pela saída da ilha como também pela desgraça.

Traidor? Sei que muita gente já diz isso; mas é preciso lembrar que, efetivamente, ainda não vimos Sayid trair nenhum de seus companheiros de ilha. Ele traiu, sim, nossos sentimentos em relação ao homem que conhecemos na ilha, e que por muitas vezes nos deu a certeza de ter deixado os demônios no passado. E agora, teremos que trilhar o caminho que fez Sayid convocar os mesmos demônios no futuro, com a certeza de que fomos enganados. Não nos enganemos: Sayid também foi.





"Não tenho nada lá fora para mim". Para nós, conhecedores de capítulos dolorosos dos Oceanic Six, a frase de Sawyer soa cada vez mais sábia; e, se quisermos falar de Sayid, vale lembrar de outra frase dita pelo golpista: "Um tigre não muda suas listras". O futuro dele acaba de gritar isso para nós - uma verdade que um outro golpista de "Lost" aplaude em cada pedaço de sua perversidade, e que nos dá a certeza: no amanhã, Sayid Jarrah é vilão e vítima.

* * *


Os experimentos de Faraday, os braceletes de Naomi e Elsa, os disfarces de Ben, as vítimas e "amigos" de Sayid, o economista... Muitos, muitos assuntos aguardam vocês no podcast #55, nesta segunda-feira. Combinado?

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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