sábado, 1 de março de 2008

"THE CONSTANT" – ENCONTRA-TE A TI MESMO

(Com SPOILERS! para quem ainda não viu o quinto episódio da quarta temporada)


"Você a mandou para o futuro?" (Desmond para Faraday)
"Não: mandei a mente, a consciência dela" (Faraday para Desmond)
"Então, estamos mudando o futuro? (Desmond para Faraday)
"Ele não pode ser mudado" (Faraday para Desmond)



"Obrigado, Sayid. Foi o suficiente" (Desmond)





Acima dos mistérios, "Lost" é sobre ambigüidades. Sobre vidas que se transformam não apenas depois de acidentes, mas após a chegada das pessoas àquela ilha – e, nesta quarta temporada, sobre o novo renascimento dos que voltaram ao mundo depois de estar por lá também.

Cogitado várias vezes por mim como um potencial candidato a personagem principal de "Lost", Desmond é singular como um todo em sua trajetória. Ele é um sobrevivente sem ter caído com os passageiros do vôo 815, um habitante anterior à tragédia da ilha sem ser um Outro, foi um Dharma sem ser um Dharma... E agora, com "The Constant", vimos que, metáforas à parte, ele realmente transita entre duas realidades.

Aliás, se "Lost" é um acervo de metáforas, eis aí mais um diferencial de Desmond: com ele, elas praticamente inexistem. Reparem: em relação a todos os demais personagens, somos nós, espectadores, que traçamos as comparações entre as situações dentro e fora da ilha, que percebemos os paralelos. Com Desmond, não: ele é espectador e protagonista de sua própria tragédia particular.





Com a espetacular fuga da armadilha dos paradoxos em viagens pelo tempo armada pelos roteiristas, descobrimos um homem mais atormentado do que nunca, vítima de uma mente que vê e vivencia acontecimentos sobrepostos, realidades que se fundem de forma enlouquecedora em uma viagem angustiante, que só pode ser interrompida de uma forma apenas: no encontro de uma constante. Uma ligação forte que ponha passado e presente novamente em perspectiva, em harmonia.





E notem que genial: através da ciência de Faraday, temos a resposta para o problema de Desmond; e com esta mesma resposta, a maior metáfora que temos na série, presente em seu próprio nome, "Lost": qual sobrevivente do vôo 815 não busca uma constante? Quem ali não se vê perdido em pesadelos repetidos, assombrados por fantasmas insistentes, temendo não conseguir seguir em frente por conta do passado? Quem ali não tenta achar, das mais diversas formas, um ponto que traga luz e estabilidade?





O de Desmond atende pelo nome de Penelope Widmore; e, numa das cenas mais impactantes da história de "Lost", o "eu te amo" dito ao mesmo tempo pelos dois poderia passar por um escorregão na pieguice mas na verdade faz todo o sentido. Após Desmond experimentar tortuosas modalidades de déjà vus, em frases que começavam e terminavam em épocas diferentes, a harmonia de palavras entre ele e sua amada é mais do que a buscada e mencionada interseção entre o ontem e o hoje: é a paz que ele buscava desde o momento em que, hesitante, cedeu aos caprichos do destino e se afastou de seu amor.

E é assim, com ciência e sentimento dando suporte um ao outro, com interseções, uniões, variáveis e resultados improváveis, que se forma "Lost": uma complicada e absolutamente linda equação que, por mais que nem sempre consigamos compreendê-la, nem por isso deixamos de admirá-la e percebê-la em corações e mentes.

* * *


A tempestade, a esperteza de Faraday, o "amigo" no cargueiro, o leilão de Widmore e vários outros assuntos serão temas do próximo podcast Lost in Lost, no ar aqui no blog segunda-feira. Até!

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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