sexta-feira, 9 de maio de 2008

"CABIN FEVER" - O WALKABOUT DE UMA VIDA

(Com SPOILERS! para quem não viu o 11º episódio da quarta temporada)

"Ele teve infecções, pneumonia, um pouco de tudo. E em todas as vezes ele se curou. Ele é um lutador. As outras dizem que ele é um milagre" (Enfermeira)
"Não desista. Tudo é possível" (Matthew Abbadon)
"Sabe o que você precisa, sr. Locke? Ir para um walkabout" (Matthew Abbadon)
"Logo você entenderá as conseqüências de ser um escolhido" (Benjamin Linus)
"Você é Jacob?" (Locke)
"Não, mas posso falar em nome dele" (Christian Shephard)
"Você não pode ser o rei da formatura, não pode ser o quarterback, não pode ser um super-herói" (Professor)
"Não me diga o que não posso fazer" (Locke)
"Não entrarei com você, John. Meu tempo acabou. É a sua vez agora" (Ben)


"Você sabe por que estou aqui?" (Locke)
"Sim, claro. E você?" (Christian)
"Eu estou aqui porque fui escolhido para estar" (Locke)





O quanto pesa ser um escolhido? Quais e quantos obstáculos precisam enfrentar aqueles que têm pela frente uma grande viagem? Tentar pensar em respostas exatas para essas perguntas é se perder em um mar de subjetividade, sabendo que nunca se chegará à verdade absoluta. Mais palpável é simplesmente reconhecer que os caminhos que essas pessoas especiais se destinam a trilhar - ou melhor, que são destinadas a trilhar - são tão estranhos e sinuosos quanto intensos em cada palmo, para o bem ou para o mal; e que, invariavelmente, eles conduzem a algo grandioso.

John Locke é um destes homens. Se foi aos poucos que descobrimos o quão importante era seu papel neste fascinante universo chamado "Lost", desde sempre notamos que ele se destacava em relação ao grupo dos que sobreviveram inexplicavelmente a uma tragédia - sobretudo por ser alguém que não apenas sobreviveu como também se curou após o acidente. John Locke é o milagre dentro do milagre.





No entanto, o que parecia "apenas" uma cura fantástica operada por uma força maior mostrou na verdade ser o instrumento para que Locke pudesse realizar o destino tão sonhado por ele e que lhe fora limitado pela selvageria dos abandonos, traições e desgostos que escreveram sua história, mas que também o fizeram acumular sobre os ombros lições dolorosas de auto-conhecimento.

"Cabin Fever" veio para nos mostrar que, paralelamente às grandes tragédias pessoais de Locke, antes mesmo de os eventos o apontarem como um ser especial, destinado a uma missão maior, sua importância já era reconhecida dias após seu nascimento - ou, como vale arriscar, até mesmo antes disso. Richard Alpert e Matthew Abbadon são mais do que testemunhas da via crucis de Locke: são dois enviados da ilha e que não eram encarregados de transformar a trajetória de John, mas sim de garantir que seu destino se cumprisse.

As evidências exibidas neste episódio são mais do que fundamentais para apontar que, na queda de braço entre destino e livre arbítrio travada em "Lost", definitivamente, o primeiro venceu. Locke, Michael, Jack, Hurley... todos ali estão fadados a cumprir funções determinadas por algo maior. Sinas comprovadamente inabaláveis, que podem explicar armas que falham, tentativas frustradas de suicídio e assassinatos impossíveis; e que, quando pertencem a escolhidos como Locke, nos fazem pensar que os obstáculos enfrentados por ele em sua trajetória nunca ameaçaram seu compromisso com a missão, mas sim foram estágios de provação que o tornaram apto a encará-la. O destino é mesmo uma vadia inconstante? Não para os nobres de intenção, característica dos verdadeiros escolhidos.





"Não desista, John", pediu Abbadon; e, desde então, no único momento em que Locke ousou abrir mão de sua vida, a ilha novamente lembrou a ele de que havia um trabalho a ser feito. Uma tarefa que o pôs diante de Christian Shephard, de quem aceitou a estranha e fascinante missão que passou a atormentar a nossa mente ao fim do episódio: mover a ilha. Feito colossal confiado a um predestinado que pode até nunca ter percebido, mas coleciona walkabouts em sua fascinante e dolorosa jornada, saindo deles fortalecido; e agora, reencontrado em seu caminho de fé, encontra-se pronto para o desafio, de braços abertos para a sua tão sonhada redenção.


* * *


Guardei muito mais para o próximo podcast Lost in Lost. Nesta segunda-feira, é a vez de falar de Christian e Claire, Gault, Keamy, Michael, o bravo Lapidus, Ben, Hurley, bebês prematuros, o segundo protocolo... e, claro, mais de Locke e do grande desafio de se mover uma ilha. Namastê!

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

Nenhum comentário: