sexta-feira, 2 de maio de 2008

"SOMETHING NICE BACK HOME" - A MAIOR DAS DOENÇAS

(Com SPOILERS! para quem não viu o décimo episódio da quarta temporada)


"Todos os Oceanic Six estão mortos" (Hurley)
"Vivendo com Kate, tomando conta de Aaron... Tudo parece perfeito... como no céu" (Hurley)
"Charlie disse que alguém vai visitar você. Em breve" (Hurley)
"Estou certo de que ele estava tentando provar algo" (Juliet)
"Provar o quê?" (Kate)
"Que ele não ama outra pessoa" (Juliet)
"Se você tem problemas, você tem que cuidar deles, ok? Porque eu não posso te ter aqui desse jeito com meu filho" (Kate)
"Seu filho? Ele nem mesmo é seu parente!" (Jack)



"As pessoas adoecem, Rose" (Bernard)
"Não. Aqui, elas se curam" (Rose)

"Jack?" (Christian Shephard)






Se engana quem pensa que "Lost" é essencialmente sobre mistérios. Melhor dizendo: se equivoca quem esquece que "Lost" é uma série sobre pessoas. E são elas, seus interesses, pesadelos e reminiscências o foco principal de "Something Nice Back Home", episódio que introduziu a decadência de Jack e a desconstrução de seu futuro perfeito através de seu pai, Christian Shephard.

Mas começo falando de Hurley. É curioso ver os jeitos distintos com que a ilha avisa a ele e a Jack sobre o evidente erro que foi a saída dos Oceanic Six - mesmo ambos estando, para a sociedade, sob a mesma genérica capa de insanidade. Enquanto Hurley tem pela frente seu melhor amigo - com quem, agora sabemos, ele conseguiu desenvolver uma boa relação pós-morte -, Jack é assombrado pelo homem que insiste em não morrer para ele, fato já marcado simbolicamente desde a primeira temporada na cena em que Jack, angustiado, descobre na ilha que o caixão de seu pai encontra-se vazio, impossibilitando definitivamente seu enterro.

E foi a presença de Christian Shephard que conseguiu convencer Jack de que Hurley estava certo ao se incomodar com aquele pretenso clima de perfeição construído em torno da saída de cada um dos seis. Aliás, quem melhor para alertar Jack sobre um grotesco equívoco do que Christian, o homem que sempre fora um aglomerado de erros?

Antes da ilha, foi ele que brotou em Jack as dúvidas e inseguranças que o médico tem a seu próprio respeito - excetuando tudo o que envolve a prática médica -, exemplificada na dificuldade de Jack em não apenas se casar como em manter sua união com Sarah; e após a ilha, Christian continua se manifestando assombrosamente para Jack, na figura de Aaron Littleton.

Não há dúvidas: Jack custou a aceitar Aaron não apenas porque ele era a lembrança de que Claire havia ficado para trás, mas sobretudo porque era prova viva de um dos desvios de conduta de Christian. Problema temporariamente contornado quando Jack, como Kate já havia cogitado em "Eggtown", passou de fato a acreditar na própria mentira contada tantas vezes por ele. Assim, Aaron realmente se tornou filho de sua amada e, por conseqüência, poderia ser seu também.





E um dos grandes méritos de "Something Nice Back Home" é saber nos transportar para essa realidade feliz de Jack, Kate e Aaron enquanto família. Afinal, quem se lembra de Claire ao ver o menino dormindo, embalado pela história de Jack, cena assistida por uma Kate embevecida? Eu, não. É uma mentira que cativa não só os dois como o público também.

Mas então veio a mensagem de Charlie, seguida pela presença de Christian. Novamente indeciso, Jack começa a se afundar nos vícios no mesmo momento em que encontra as verdades. E o mais interessante: curiosamente, mas não por acaso, o golpe decisivo de Jack na frágil realidade tecida e desejada é quando ele lembra Kate - e a si mesmo - de quem Aaron de fato é. Ali, naquele momento, Jack rompe laços com a falsidade, admitindo que eles todos são mentiras vivas.

Sobre o caos particular do doutor Shephard, há algo que se torna importante destacar: o Jack de "Something Nice Back Home" é um homem agarrado à falsa realidade que abraçou ao sair da ilha e incomodado pela verdade representada por Christian; e o Jack de "Through the Looking Glass" é um homem largado em um limbo, que não consegue se encontrar na mentira que ajudou a criar nem na realidade que precisa retomar.





A única semelhança entre esses dois Jacks é o ato de negar e fugir de Christian. Só a partir do momento em que Jack conseguir estar diante de seu pai é que ele poderá obter a resposta para voltar ao local que não deveria ter deixado. Até que isso aconteça, ele continuará sendo a expressão real do mal que o vimos experimentar na ilha; até lá, seguirá como o homem que adoeceu onde deveria ter encontrado a cura.


* * *


Claro, há muito mais o que dizer de "Something Nice Back Home". E é por isso que na segunda-feira teremos mais um podcast Lost in Lost. Namastê!

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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