quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

“Lighthouse”: a tempestade entre caminho e destino final

(Com SPOILERS! pra quem não viu o episódio)

“Partir é uma opção?” (Jack)
“Tudo é uma opção” (Dogen)
“É difícil olhar e não poder ajudar” (Dogen)
“Eu faço o que eu quiser, pois sou um candidato” (Hurley)
“Se Kate estivesse criando Aaron, eu a mataria” (Claire)
“Esse não é Locke: este é o meu amigo” (Claire)

“Voltei porque estava em pedaços. E fui estúpido demais em acreditar que esse lugar poderia me curar” (Jack)
“Jacob disse que você tem o que é preciso” (Hurley)

Os produtores Damon Lindelof e Carlton Cuse fizeram questão de avisar no podcast oficial da série que o nome do quinto episódio da temporada – em português, “Farol”- possuía diversos significados. Não era necessário, uma vez que isso está evidente em todo o episódio, especialmente em sua ironia maior de nos mostrar um misterioso farol e um pastor perdido, Jack Shephard. Mas sua desorientação inerente se revelou a partir de seu pai.

Christian Shephard morreu perdedor: derrotado pelo vício, pelo fracasso profissional e, sobretudo, por não ter conseguido estabelecer junto aos filhos a conexão necessária para que pudessem provar em vida o que as certidões pudessem dizer – há que se ressaltar, por culpa própria. Tratou de estabelecer para sua vida a ironia de conseguir curar a todos, menos a si mesmo.

Em um caminho dividido entre a vontade e a força maior – destino? -, Jack Shephard o repetiu em diversos aspectos. Sua carreira e a respectiva competência profissional que com ela alcançou não foram necessárias para guiá-lo a uma vida feliz – que, em algum nível importante, passava pela aprovação paterna nunca plenamente obtida. Sempre houve algo de errado com o doutor Jack Shephard – e o problema sempre se traduziu no contraste entre o homem que o mundo via e o que ele encontrava no espelho. Por isso, por exemplo, se sentia líder na ilha mas tentou recusar a função: ele simplesmente esperava o momento em que algo lhe repetisse o que primeiro ouviu de Christian: “você não tem o que é preciso”. Ou pior: de fato já ouvia a voz de Christian a lhe dizer o mantra ruim. Assim, estabeleceu-se o paradoxo do pastor que serve/servia para guiar o rebanho mas que não consegue efetivamente se encontrar.

Em alguns momentos, a frase maldita foi sufocada por Jack; mas nos momentos realmente importantes, ela parecia lhe ser gritada. Certamente é dela que nasceu sua necessidade reativa de tentar controlar, de tentar ajustar e curar; só que o comando que conseguiu exercer é pequeno diante do descontrole que experimentou em diversos instantes de sua vida. E ainda embalado no desespero que o fez retornar à ilha – o mesmo que o ajudou a se desfazer do rótulo de homem da ciência -, Jack ainda não conseguiu encontrar a resposta que, pensava, iria de fato lhe consertar.

Para um navio perdido em alto-mar, um farol não é o ponto final, mas sim aquilo que lhe guiará até ele. E é aí que possa estar o grande erro de Jack: confundir caminho e destino final.

Assim como na realidade paralela Jack só conseguiu conectar-se com David a partir do momento em que conseguiu entrar verdadeiramente no mundo dele em vez de tentar trazê-lo para o seu, e também fazendo com que o garoto acreditasse que não repetiria sua história com Christian, talvez seja o momento de entender o caminho que lhe fora indicado pelo farol. Sendo ainda mais direto, em sua revolta destrutiva Jack não percebeu que, diante daquele reflexo, Jacob já estava falando com ele – e, no caso, apontando a sua importância, iluminando o caminho para ele entender seu papel e, a partir daí, finalmente ter condições de chegar aonde deseja…ou aonde é preciso estar.

Quando Jack será capaz de entender as coisas como são em vez de frustrar-se por não encontrar as coisas como quer que sejam? Está claro que a maior das respostas só poderá ser alcançada por ele se o problema de uma vida for superado – um empecilho que um outro Jack parece mais preparado a enfrentar do que o náufrago que, fitando o horizonte, busca se acalmar antes que o descontrole o leve em definitivo para o fundo do mar. Daí o conselho de Jacob a Hurley, daí o bem de uma pausa para se olhar o oceano, aceitar a luz guia e o caminho que aponta. Não importa o quanto demore a se perceber, o quanto se sofra no ínterim, o quanto se relute, e nem mesmo quantos espelhos sejam quebrados: haverá sempre uma maneira de se descobrir e entender a trilha verdadeira – e por mais caótico que seja esse processo, na verdade é só o progresso a se firmar.

E graças à nossa intuição e à serenidade de Jacob, sabemos o que de fato deverá acontecer após isso.

***

A irmã de Jack – ou o que se fez dela – e a relação com seu amigo; mais David. E Dogen. E Hurley. E, claro, 108 graus. E outros temas para o podcast Lost in Lost, que vem na sexta. Antes dele, porém, esperem spoilers para esta quinta!

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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