quinta-feira, 25 de março de 2010

“Ab Aeterno” – A imortalidade de um embate

(Com SPOILERS! para quem não viu o episódio)

“Para escaparmos do inferno, teremos que matar o diabo” (Homem de Preto)
“Ninguém chega aqui, a não ser que os convidemos” (Jacob)
“Eu quero viver para sempre” (Richard Alpert)
“Isso eu posso fazer” (Jacob)

“Imagine este vinho como o mal (…) A ilha é como uma rolha, que impede que o mal se espalhe, permanecendo onde deve ficar” (Jacob)
“Quer saber um segredo? Algo que sei há muito, muito tempo? Vocês estão mortos. (…) E tudo isso não é o que parece ser. Não estamos numa ilha – nunca estivemos. Estamos no inferno” (Richard Alpert)

Eu sou uma pessoa que não acredita em céu nem no inferno. Acho que ambos são e sempre foram figurativos. E querem saber? Sempre me pareceram piores deste jeito. Uma vez que deixam de ser físicos, param de ser distantes. Tornam-se presentes a todo instante, frequentemente visitáveis, perfeita e complicadamente compatíveis, embora distintos.

Uma das diversas virtudes desenvolvidas em “Lost” ao longo de todo esse tempo é justamente a de nos apresentar personagens que costumam se comportar como absolutos, estúpidos, falíveis seres humanos que somos, repletos de vícios e virtudes, seguindo caminhos ora com a ajuda da fé – e não estou falando de religiosidade -, ora com o desnorte da descrença. Ninguém foge a essa oscilação; e os poucos personagens da série que até pareciam ser exceções a esse padrão acabaram confirmando a regra. Aconteceu de novo: Richard Alpert.

Considerando apenas o que a série havia nos mostrado – ou seja, spoilers à parte -, até muito pouco tempo Alpert era alguém que imaginávamos ter sido sempre poderoso, imponente, impressão fundamentada pela força de seu dom de não envelhecer. Mas “Ab Aeterno” foi uma ode a uma figura rica em sua simploriedade, surgida desde o (verdadeiro) primeiro capítulo de sua triste história, via crucis que foi se desenhando enquanto nos deparávamos com uma penca de revelações, num episódio espetacularmente equilibrado em generosidade aos que clamam por respostas e aos que adoram se debruçar sobre personalidades.

E foi o desespero de Alpert a deixa para entendermos mais e melhor a oposição entre Jacob e seu rival. Bem x Mal? É uma explicação. Mas uma explicação tão reducionista que simplesmente me recuso que o público que segue a jornada até aqui se recoste nesta percepção. Se dermos um passo além da retórica e do genérico elementar, podemos ver que há mais sobre a tentativa do Homem de Preto em convencer Jacob a lhe deixar ir, assim como me é óbvio que Jacob não quer somente provar um ponto com o bom exercício do livre arbítrio da parte dos que são por ele levados à ilha, mas sim convencer seu adversário a concordar com ele, modificando postura e intenções.

Para limitar o número de parágrafos deste texto, podíamos tentar expressar “Lost” numa única questão: até que ponto as pessoas de dentro da garrafa nos provam que as de fora valem a pena? Pergunta única, relativamente eficaz (ao menos para mim) em concisão de tema mas tremendamente injusta com toda a complexidade composta pelos embates (fé x ciência, livre arbítrio x destino etc.) que tivemos até aqui.

Excelente que os roteiristas tenham descartado a facilidade de criar um Richard Alpert glorioso, exótico e alimentado pelos seus segredos para realizar um homem simples e sofrido, desapercebido da contradição de sofrer com a distância da esposa e desejar a vida eterna; e genial que eles tenham nos dado opostos que vão além do confronto para nos jogar insistentemente nas capacidades e incompetências do ser humano, apostando suas fichas no que de fato resta disso.

Claro que penso que o fim da série nos dirá – e quero muito saber – se o vinho vazará ou não de seu invólucro, e ao mesmo tempo não consigo ver a balança dos dois homens se desequilibrar por argumentos; Porém, me reforça o orgulho de gostar tanto de “Lost” por sua história respeitar toda a complexidade do embate maior, que joga Jacob e o Homem de Preto praticamente na arquibancada para verem a natureza humana se entender não como boa ou má, mas sim como uma imperfeição válida ou fracassada ao experimentar céus e infernos, conseguindo até ser divinamente frágil mesmo quando se vê esvaziadamente imortal.

***

Black Rock, Taweret, opostos, semelhantes, Isabella, Hurley e sua importância, mais Alpert… Claro que são assuntos para um novo podcast. No fim da semana, como de costume.

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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