quinta-feira, 18 de março de 2010

“Recon” – paradoxo de listras

“Você está com Locke agora?” (Kate)
“Eu não estou com ninguém, Kate” (Sawyer)

Desde o começo da saga, não demorou muito para descobrirmos que seu nome fazia menção não apenas à condição daquele grupo, isolado e acidentado numa ilha de localização ignorada, mas também às realidades de cada passageiro. Porém, além de perdidos, boa parte dos personagens de “Lost” possuem talento extremo para a reclusão – e “Recon” é um episódio que nos relembra esse aspecto a partir de um exemplo especialíssimo: James “Sawyer” Ford.

James Ford pertence a esse núcleo de sozinhos graças a uma mistura inusitada, que funde autodefesa, autosabotagem e…destino. Juntos, estes elementos conspiram para que ele chegue à conclusão de que deva se bastar, seja em qual realidade for, na sala escura de um apartamento ou numa barraca à beiramar. Até mesmo seu hobby favorito, a leitura, remete a um hábito primariamente solitário. Na maior parte da vida, Jim foi um ermitão, habitante da caverna chamada Sawyer.

Não se pode dizer que sempre foi assim, sobretudo no pós-ilha; porém, a cada vez que baixou a guarda, tal ato só corroborou para que voltasse a se trancar. Lembremos que, quando ele foi LaFleur, foi Dharma, foi Cassidy, foi Kate, foi Juliet, em todas essas ocasiões o sofrimento venceu.

Assim, o James Ford que encontramos hoje na realidade original é um homem que, como testemunhamos bem, tentou o caminho das virtudes e das emoções, guias de um herói. Pouco adiantou contrariar um paradoxo todo seu: uma vez na ilha, é em seu autodesprezo que James consegue se enobrecer; e é em seu egoísmo que ele acaba se transformando em altruísta. Como negar isso diante do homem que pode ter encontrado uma salvação para o grupo através de um ato duplo de traição?

James Ford é o estranho equilíbrio que não está no meio do caminho entre fé e ciência. Ele oficialmente desceu dos pratos da balança – e esse é seu caminho para pender para o lado bom. As listras estão de volta em suas costas – regravadas em agulha, cuidadosamente tatuadas como outrora. Artificiais. Convenientemente adotadas, porém artificiais.

Para James, sacrifício é costume; e, novamente, a solidão é o jeito de se alcançar a felicidade através do não sofrer. E é assim que eu o vejo como um forte candidato a substituto de Jacob: por ser alguém que, de tanto treinar-se para chegar aos fins não importando os meios, acabou transformando seus meios nos fins ideais para os demais. E quem há de dizer que não será isso a importar?

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Os Oceanic, os Ajira, os Widmore, os policiais, a arqueóloga… Temas para o Podcast Lost in Lost #91!

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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