quinta-feira, 1 de abril de 2010

“The Package” – o fôlego antes da queda

(Com SPOILERS! para quem não viu o episódio)

“Raiva, felicidade, dor… Eu não os sinto mais” (Sayid)
“Talvez seja melhor assim, Sayid. Vai te ajudar a passar pelo que virá” (Homem de Preto)
“Um homem sábio disse uma vez que a guerra estava vindo para a ilha. Acho que esse homem acaba de chegar”(Homem de Preto)

“Algumas pessoas simplesmente não devem ficar juntas” (Keamy)

Episódios que não orbitam por grandes conceitos são raros na história de “Lost”, mas existem… e na maior parte das vezes são subvalorizados. Não que sejam passíveis de estar na galeria dos capítulos memoráveis mas, por simplesmente não estarem, isso os credencia a um limbo que é igualmente inadequado a eles. “The Package” é um exemplo típico deste grupo: embora menos charmoso do que a grande maioria – e isso fica ainda mais destacado por suceder o fortemente mitológico “Ab Aeterno” -, cumpre plenamente sua função de ser um “episódio de preparação”.

Em uma montanha russa, sabem quando nosso carrinho está prestes a descer freneticamente para dar loopings e parafusos, mas antes experimentamos breves segundos de fôlego e vislumbre antes de começarmos essa parte hardcore do passeio todo? É exatamente o que temos neste décimo episódio. A impressão que se tem é a de que “The Package” é mesmo o silêncio que antecede o cataclisma, embora muito aconteça nessa ausência sonora – e é daí que vem o “preparação” do termo.

Relembrando: temos Zoe, a revelação de sua formação (geofísica, não nos esqueçamos) e o mapa dos bolsões de energia eletromagnética; Widmore e o Homem de Preto subindo ao ringue para aquele round inicial em que, antes de desferirem seus golpes, ambos estão preocupados em estudar o adversário; o momento imediatamente anterior do engajamento de Richard Alpert e companhia na missão de impedir que o Homem de Preto se liberte; o retorno à ilha de Desmond, elemento que, como todos sabemos, insiste em nos dizer em teorias, desconfianças, manifestações instintivas etc. que é parte da resposta que todos buscamos… e no centro de “The Package”, claro, há o acontecimento catalisador de toda essa história: Jin, sequestrado em duas realidades, dupla e novamente privado de conduzir sua vida desejada.

A história de Jin e Sun encontra maior distinção pelo fato de potencializar ainda mais o fator “Lost” de associação do nome do seriado à realidade de seus personagens. Eles não estavam apenas perdidos em sua vida como indivíduos, mas como um casal. Não apenas as histórias deles são infelizes, mas sobretudo a história deles. Poucos foram os momentos em que Jin e Sun foram realmente felizes juntos; aliás, identificar a felicidade deles ligada a instantes já demonstra a vitória de seu insucesso, talvez evidenciada ainda mais pelo fato de “The Package” não nos entregar o esperado reencontro – um êxito dos roteiristas que resistiram ao óbvio de fazer o casal se reunir quando todos esperávamos isso. Pensando de forma pessimista, talvez esta seja uma pista de que a frase de Keamy repetida antes do texto seja bem aplicável ao agora e acabe se materializando na grande verdade dos dois. Convenhamos: no momento de desequilíbrio de forças da ilha anda fácil ser pessimista quanto ao desenrolar dos acontecimentos; porém, de fato nada de pior aconteceu…ainda.

“The Package” não é um episódio bombástico e nem se propõe a ser mas, metáforas infelizes de tomates sãos à parte, nos traz movimentos necessários para o marco do embate maior tão anunciado quanto intuído – e talvez tenha sido a última vez que eu possa ter usado o “ainda” ao falar da série. Por isso, não é absurdo algum dizer que, por mais que ainda não haja o desejado pânico da descida, nosso carrinho já começou a despencar do alto dos trilhos.

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Zoe, Jin, Mikhail Bakunin, Jack, Sayid, Widmore… No fim de semana chegam o Podcast Lost in Lost #93 e a Raspa do Tacho. Namastê!

Fonte: Lost In Lost - Por Carlos Alexandre Monteiro

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